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miércoles, 24 de junio de 2009

Sócrates e uma mosca num estúdio de televisão...

Sócrates aceitou que uma suspeita pessoal fosse encarada como um ataque a todo o Governo
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Se uma mosca tivesse irrompido pelos estúdios da SIC durante a entrevista a José Sócrates, será que o primeiro-ministro a teria despachado à pancada com um "toma lá, sacana" ou, pelo contrário, produziria uma ode à mãe natureza a louvar a diversidade dos seres vivos?
Nesta altura do campeonato, eu aposto na ode. Infelizmente, como tão bem explica o dr. House, as pessoas não mudam. Um lobo pode vestir a pele do cordeiro mas continua a gostar de carne.
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Da fama de autoritário e arrogante Sócrates já não se safa - e só mesmo com uma certa candura é que alguém pode achar que o seu principal problema é zangar-se muito e fazer cara de mau.
Eu até sou daqueles que acham que o carácter de um político é o seu mais valioso património. Mais depressa voto em alguém que entendo ter as capacidades e a personalidade certas para o desempenho do cargo de primeiro-ministro do que num qualquer programa eleitoral, por mais atinado e engenhoso que ele seja. Mas também não vale a pena exagerar na dedicação ao timoneiro. O País anda há uma semana a analisar o "novo Sócrates", com profundas reflexões sobre a queda dos decibéis, a milagrosa multiplicação da palavra "humildade" e o seu novo olhar de carneirinho mal morto.
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Mas mesmo que Sócrates pareça um daqueles homens cuja traição acabou de ser descoberta pela mulher e que agora está a fazer tudo para salvar o casamento, reduzir a discussão política a uma inflexão vocal é, digamos assim, um bocadinho redutor.
Quase todos os colunistas atribuíram a derrota de Sócrates à crise e desvalorizaram o impacto dos sucessivos casos em que ele foi sendo envolvido. Não subscrevo tal tese.
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Parece-me evidente que o acumular de trapalhadas lhe provocou um enorme desgaste e que o caso Freeport foi a gota que fez transbordar o copo na cabeça de muita gente.
A sua estratégia de vitimização e pontapé para canto transformou aquilo que antes era encarado como uma qualidade (teimoso e autoritário porque convicto e persistente) num inabalável defeito (teimoso e autoritário porque arrogante e prepotente).
Mais grave do que isso: Sócrates aceitou que uma suspeita pessoal fosse encarada como um ataque a todo o Governo, com vários dos seus ministros - Pedro Silva Pereira e Augusto Santos Silva à cabeça - a saírem em sua defesa de forma canina e completamente desproporcionada.
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A partir daí, claro, a arrogância já não era só de Sócrates - ela estendia-se a todo o Governo. E a sensação de estar apenas rodeado de yes men acentuou-se. Como é evidente, isto é muito mais do que um problema de estilo. Isto é o coração da maneira socrática de fazer política. Mudar de cara, ainda vá. Mas de alma?
João Miguel Tavares
in DN

martes, 9 de junio de 2009

A segunda vida de Manuela Ferreira Leite...

Sobre o PSD. Estão a ver aqueles jogos de computador onde a energia do herói vai diminuindo à medida que leva pancada dos adversários?
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Assim estava Manuel Ferreira Leite: 5% de energia, luz vermelha a piscar, cercada de inimigos, game over à vista. E eis que no último momento saca da cartola um daqueles suplementos vitamínicos que repõem a marca nos 100, ganhando um novo alento para chegar ao próximo nível. Paulo Rangel foi uma escolha pessoal sua, contra quase todo o partido e perante a surpresa da comunicação social. Mérito seu - e, sobretudo, um golpe de asa que ninguém desconfiava que Ferreira Leite pudesse ter.
Há quem nasça um bom líder e há quem se torne um bom líder. Boa líder, ela manifestamente não nasceu. A noite de domingo deu-lhe o tempo que precisava para demonstrar que se pode tornar uma. Pedro Passos Coelho deve estar tão triste quanto Vital Moreira.
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Sobre o PS. Ainda a noite ia no início quando Mário Lino saiu do Hotel Altis. Para afastar os repórteres de televisão, disse que só ia ao carro buscar tabaco. Nunca mais se lhe ouviu palavra. Este sair para comprar cigarros e desaparecer no escuro é sintomático do estado em que o PS ficou na noite de domingo. Vital Moreira foi um desastre como candidato e teve o que mereceu. A sua derrota demonstra também que não é a máquina partidária e os comícios cheios que hoje em dia empurram quem quer que seja para a vitória.
Quanto a José Sócrates, a queda foi estrondosa, mas justiça lhe seja feita: na hora da derrota deu a cara, não se desculpou, prometeu luta e esteve ao lado do seu candidato. Comportou-se como um homem.
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Sobre o bloco central. Desde 1985, quando surgiu o fenómeno PRD, que a soma de PS e PSD não caía claramente abaixo dos 60% numas eleições em Portugal. Esta fragmentação do espectro partidário já anda por aí a assustar os profetas da "governabilidade". Tendo em conta que já vamos em 20 anos de "governabilidade", limito-me a perguntar: aproximámo-nos da Europa? Desenvolvemo-nos como devíamos? Ganhámos com isso? A governabilidade está muito sobrevalorizada.
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Sobre o fim do capitalismo. Mário Soares deve estar um pouco confuso. Então não era suposto que a crise demonstrasse a falência dos partidos da direita, alegados representantes do neoliberalismo selvagem que conduziu o mundo ao estado em que estamos? Pelos vistos, o povo europeu é louco: confia mais na direita do que na esquerda para o tirar da crise. Soares tem aqui matéria para mais uns artigos.
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Sobre as sondagens. Já nem as noites eleitorais escapam às teorias da conspiração. Segundo o CDS, as sondagens pré-eleitorais não se enganam - as sondagens pré-eleitorais conspiram. Por todos os santinhos: mais cabalas, não.
joão Miguel Tavares
in DN

miércoles, 27 de mayo de 2009

Quem tem medo de Manuela Moura Guedes?...

A peixeirada entre Manuela Moura Guedes e António Marinho Pinto não foi um momento edificante, é certo. Mas convinha que ela não fosse aproveitada para alimentar o desejo mal escondido de muito boa gente: acabar de vez com o Jornal Nacional de sexta-feira e enviar Moura Guedes de volta para a prateleira da TVI.
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Os defensores do Portugal compostinho certamente aplaudiriam a decisão, com o argumento de que "aquilo não é jornalismo". Só que o País ficaria a perder. Porque apesar do sensacionalismo e da ocasional falta de rigor do seu Jornal Nacional - que deve ser apontado quando ocorre, se necessário aos gritos, como fez Marinho Pinto -, há ali um desejo de incomodar, de denunciar, de escarafunchar, de meter o nariz nos podres do poder que a comunicação social portuguesa precisa como de pão para a boca.
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Manuela Moura Guedes não é a pivot com que eu mais gosto de acompanhar o jantar. No entanto, ainda sei distinguir o estilo do conteúdo. O facto de ela despejar o frasco da demagogia por cima de todos os textos que lançam as peças, sempre com aquele tonzinho de "isto é tudo uma corja", não significa que as notícias do Jornal Nacional, em si, não sejam relevantes. Hoje em dia nós aguardamos pelo telejornal de Moura Guedes como no tempo do cavaquismo aguardávamos pelo Independente.
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Ora, esse "deixa cá ver de que forma é que eles vão estragar o fim-de-semana ao primeiro-ministro" é de uma enorme importância num país como Portugal, cuja cultura democrática está ligeiramente acima da da Venezuela e o Governo tem um poder absolutamente excessivo sobre as nossas vidas.
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Dir-me-ão que aquilo é desequilibrado e injusto. Muitas vezes, sim. Tal como o Independente. E para dirimir os excessos existem tribunais. O próprio Independente foi condenado em vários processos - mas o seu papel foi inestimável. É que o que está em causa não é a nossa identificação com aquele tipo de noticiário. É, isso sim, a defesa da sua existência num país onde o primeiro-ministro diz que um dia feliz é um dia em que o seu nome não sai nos jornais, lapso freudiano bem revelador do seu desejo de silenciar.
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As intervenções histriónicas de Manuela Moura Guedes estão à vista de todos, e por isso ela está sujeita a ser criticada da mesma forma que critica. O que não está à vista de todos - e por isso é bastante mais perverso - são os jornalistas que calam, que não arriscam, que se retraem com medo das consequências.
O Jornal Nacional tem muitos defeitos, mas pelo menos tem uma independência e uma capacidade de incomodar que advém da mais preciosa das liberdades: a das empresas que têm sucesso, dão dinheiro, e não precisam dos favores do Estado.
Em Portugal, infelizmente, isso é um bem raro. Convém proteger os casos que existem.
João Miguel Tavares
in DN